uma subtil provocação

A expressão popular Tapar o Sol com a peneira perdura no tempo e aplica-se em diversos contextos das nossas vidas. Assistimos, frequentemente, ou vivenciamos situações em que nos procuram atirar areia para os olhos ou nos tentam esconder algo que é evidente. Não deixando de ser uma realidade silenciosamente discreta, convoca-nos à atenção e à ação. Tapar o Sol com a peneira é também título da intervenção do jovem estudante Romeu Mizuguchi realizada para o programa de residências artísticas da Casa Oficina António Carneiro e que se apresenta como um jogo poeticamente irónico e, simultaneamente, de crítica social - entre aparência e transparência.

Numa dupla conjugação entre o interior e o exterior, as janelas apresentam-se como o principal elemento quer da fachada do edifício como da sala da exposição destacando-se pela sua escala, formas e desenho. As estruturas padronizadas das caixilharias remeteram o Romeu para a Azulejaria Portuguesa e, mais concretamente, para os motivos geométricos que se articulam e adaptam aos e com os espaços – veja-se a azulejaria Enxaquetada do séc. XVI.

Se por um lado as janelas sugerem uma abertura, libertação e/ou contacto entre o interior e o exterior, por outro, a obstrução parcial à entrada da luz natural no interior da sala pela presença de estores, motivada pela alteração da função original do espaço, serviu de estímulo à concretização do projeto do Romeu. Uma analogia crítica aos edifícios devolutos ou em ruínas cujos acessos são vulgarmente entaipados ou emparedados apresenta-se, nesta intervenção, como um embelezamento fictício ou operação de maquilhagem discreta pela incorporação de “painéis de azulejos” realizados em material transparente que coincidem com o desenho das caixilharias. Acentua-se a separação, a vedação do espaço através de um preenchimento padronizado. Uma quase impercetível mas subtil provocação.

 

Rute Rosas

Fevereiro, 2014

 

PhD Teacher - Artista Plástica

Tutora - Professora Auxiliar

Faculdade de Belas Artes - Universidade do Porto 

© 2020 por romeu mizuguchi

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